Tio Geraldo Enviado por Wednesday, March 10 @ 12:33:43 BRT
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 Relutei por uma semana para tentar sintetizar em um pequeno artigo, o que representou na minha vida e quem foi meu tio Geraldo Cedran.
Para expressar o que esta história comum a muitas famílias representa, recorro à metáfora presente na obra da escritora chilena Isabel Allende, A casa dos espíritos, onde num misto de ficção e realidade sobre o olhar de uma menina que enxerga muito além dos seus olhos, se constrói a história de uma família, ao longo de suas gerações sempre presente na mesma casa, ora habitada por viventes, ora por espíritos de antepassados.
O que sinto quando me lembro de meu tio Geraldo é esta sensação de que mesmo em vida ele ainda rondava com o meu avô José, pelo salão do Bar São José, organizando as prateleiras de bebidas, separando caixas, atendendo no balcão, bebendo, fumando, exercendo uma das mais difíceis artes que é viver.
Assim nasci e cresci neste pequeno canto da cidade de Dobrada, na antiga rua do comércio, atual Batista Barbieri entre os números 1403 e 1413. Olhando ao meu redor sinto brotar a história e a vida nas paredes, prédio, casas e ruas que ainda persistem em viver em minha perturbadora memória. Sinto que devo como ofício e obrigação deixar falar por mim todos esses homens e mulheres que fizeram nossa cidade.
Para não perder a tradição e não ficar vadiando pela rua, desde cedo por volta dos dez anos de idade já ajudava meu tio Geraldo no bar São José. Com ele aprendi a controlar a lista de fregueses que tinham conta a fiado, a realizar os trocos e medir as doses de bebidas, a preparar o rabo de galo e distinguir fernet do vermute, não consegui aprender por mais que me esforçasse a fazer as contas de cabeça, que ele rapidamente realizava entre assovio e um trecho de música naturalmente cantarolada.
Ah! A música, esta sim, foi a grande lição que meu tio Geraldo deixou em minha vida. As modas de viola que toda a noite ele cantava em companhia do senhor Pantaleão de Souza e as prosas que intercalavam essas modinhas é que me fascinavam mais e mais. As histórias eram trágicas, cômicas, mas principalmente passavam verdadeiras lições de vida, que muitos dos quais, somente hoje, depois dos quarenta anos, consegui entender e verdadeiramente compreender.
Os boiadeiros sofriam, as juras de amor eram seladas até com a morte e muitas vezes, diante de um amor impossível ficava a certeza de que sua eternidade permaneceria eternamente numa profunda resignação.
Voltando à família, à essência do que é poder ter uma família, acompanhava toda noite a um verdadeiro ritual. Após fechar as portas do bar, meu tio dirigindo-se pelos fundos, fechava a porta de minha casa e entrando no quarto de meus avós, na primeira gaveta da cômoda depositava o dinheiro, pedia benção aos pais e ia embora, seja lá pra saída de Dobrada para Matão, na chácara dos Cremonesi, seja quando passou a residir na Rua Eugênio Durante, próximo à minha casa.
Esse homem feito, pai de família, colocava-se assim como eu, como um verdadeiro menino ao pedir a benção a seus pais e eu tranquilamente dormia, embalado pelos sons que vinham do Bar São José, muitas vezes aos pés da cama, ao lado de minha avó. Hoje, entendo mais do que nunca um verso da música Saudades de Araraquara que meu tio cantava “Quem parte leva saudades, pra quem fica é muito mais” Até um dia Tio.
Paulo César Cedran é Mestre em Sociologia, Doutor em Educação Escolar pela Unesp de Araraquara, Supervisor de Ensino da Diretoria de Ensino – Região de Taquaritinga, Docente do Centro Universitário Moura Lacerda de Jaboticabal e Uniesp - Taquaritinga.
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